Lixo vem do latim lix que significa “cinzas”.

No jogo da vida água se transforma em madeira, madeira se transforma em fogo, fogo se transforma em terra, terra se transforma em metal, metal se transforma em água…
…o movimento renasce

Qual é o nosso movimento para seguir no jogo?

Pequenas tragédias ecológicas nos ateliês é sobre perguntas, antes de ser sobre respostas. Num contemporâneo em crise perceptiva com a natureza, experimentar as perguntas  pode ser uma maneira de investigar as incertezas e os desafios.
É também sobre a relação entre a matéria e a imagem, sobre essa distorção da percepção que pode ser a imaginação.
Por ex: imaginamos que

“(…) tenha paciência com tudo não resolvido no seu coração e tente amar as perguntas por si mesmas. Não procure respostas que não podem lhe ser entregues agora, pois não será capaz de vivê-las. O ponto é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez depois, um dia no futuro, gradualmente você irá, sem perceber, encaminhar-se para achar a resposta.
Rainer Maria Rilke (1903)

O isolamento provocado pela Covid-19, que implicou necessariamente em outra qualidade de tempo e em uma oportunidade de olhar para si mesmo e para o entorno de uma outra maneira. Assim, comecei a mapear e coletar situações materiais que vinha observando há um bom tempo na residência artística Obras em Construção, que venho desenvolvendo na Casa das Caldeiras e no meu ateliê.

E então passei a me perguntar:
O que faço com isto? 
Descarto mais um fragmento de matéria-rejeito que vai para um aterro? 
Ou colaboro para criar um novo modo de agir sobre a matéria nos meus espaços de trabalho?

E coisas mais cotidianas também:
O que faço com uma lixa gasta, que é um composto feito de papel, adesivos e minerais duros?
O que faço com…?
As perguntas são infinitas e a ignorância sobre tudo isso imensa.

Assim surge o projeto Lix, onde nesta primeira fase mapeei o que estava acontecendo no espaço que me rodeia. O propósito deste projeto é poder levar essas perguntas para outros criadores com os mesmos desafios e também para tantas outras pessoas que olham para essa complexidade material na que estamos imersos.  
Olhar para os rastros das nossas pegadas na terra poderia ser um primeiro passo?

O projeto se apresenta como um sítio on-line, com um mural virtual composto pelos registros fotográficos dos resíduos e rejeitos. Cada uma destas imagens é também um botão de acesso à uma galeria como um descritivo dos materiais envolvidos em cada caso específico e o destino dos mesmos.

Este mural on-line tem, em paralelo, uma versão física montada que foi o ponto de partida do mapeamento . Este sítio começa com uma amostragem desses oito casos e continuará sendo alimentado a partir deste período de quarentena, como um convite a outros criadores que queiram compartilhar essas pequenas tragédias ecológicas  que acontecem em seus ateliês ou oficinas. O mural se configura assim como um arquivo dinâmico e crescente dessas situações.

Ao mesmo tempo O que fazer? é uma tentativa de reunir informações relevantes e práticas sobre como encaminhar adequadamente o descarte desses resíduos sólidos, no momento em que saem da porta dos nossos espaços de produção..

Que faremos com as cinzas dos nossos hábitos?

Leo Ceolin

Designer, cenógrafo e artista plástico argentino, radicado em São Paulo. Investiga diversos vestígios como metais, resíduos, rejeitos desenvolvendo uma espécie de arqueologia. Interessado pelas relações entre matéria e memória, atua cada vez mais no impacto da cultura do excesso na terra.
leoceolin@gmail.com